Há algo inquietante na atmosfera moral de certas zonas da internet contemporânea. Não se trata apenas de espaços onde circulam opiniões duras ou debates acalorados — fenômeno próprio de qualquer sociedade livre —, mas de ambientes nos quais se aprende, lenta e silenciosamente, a desprezar o outro. Entre jovens adolescentes, sobretudo em comunidades digitais pouco vigiadas por adultos — fóruns fechados, servidores privados e grupos em plataformas como o Discord — forma-se, com frequência perturbadora, uma cultura subterrânea de ressentimento dirigida particularmente contra mulheres e meninas.
Esse fenômeno não nasce do nada. Ele se desenvolve no encontro entre duas forças decisivas de nosso tempo: a exposição precoce à violência e a formação emocional ainda incompleta da juventude.
A infância contemporânea atravessa imagens que outrora pertenciam ao mundo adulto. Vídeos de agressões, humilhações públicas, pornografia brutalizada e conteúdos que transformam o sofrimento humano em espetáculo circulam sem grande obstáculo entre crianças e adolescentes. A repetição constante dessas imagens produz um efeito bem conhecido na psicologia moral: a dessensibilização. Aquilo que deveria causar repulsa passa a parecer banal; aquilo que deveria despertar compaixão torna-se apenas mais um episódio de entretenimento.
Com o tempo, o olhar se acostuma. O sofrimento perde densidade. A dor do outro se torna um dado visual, não uma experiência moral.
Esse processo de dessensibilização altera silenciosamente a própria arquitetura da empatia. O jovem que cresce exposto continuamente à violência aprende, sem perceber, que o corpo humano pode ser tratado como objeto de espetáculo. A violência deixa de ser uma ruptura da ordem moral para se tornar uma possibilidade comum de interação.
Quando esse processo se combina com discursos que culpabilizam mulheres — muito presentes em certas comunidades digitais masculinas — surge um terreno fértil para aquilo que se poderia chamar de misoginia algorítmica: uma forma contemporânea de hostilidade contra mulheres que não depende apenas de preconceitos tradicionais, mas que se fortalece nas próprias estruturas da internet.
A misoginia algorítmica nasce da repetição incessante de narrativas simplificadas e ressentidas, amplificadas por comunidades online que funcionam como verdadeiras câmaras de eco. Nos fóruns digitais, o ressentimento frequentemente assume a forma de explicações fáceis: mulheres seriam manipuladoras, responsáveis pela frustração afetiva masculina ou beneficiárias de privilégios sociais. Tais discursos funcionam como uma espécie de filosofia improvisada do ressentimento juvenil. Eles oferecem ao adolescente uma explicação rápida para suas angústias — a solidão, a rejeição amorosa, a insegurança — deslocando a causa de seu sofrimento para um inimigo simbólico: a mulher.
A internet, nesse sentido, não apenas transmite ideias; ela cria comunidades de confirmação. O jovem que chega com dúvidas encontra rapidamente centenas de vozes que reforçam sua indignação. Aquilo que poderia ser apenas frustração passageira transforma-se em identidade coletiva.
Quando a misoginia se torna identidade, ela deixa de ser apenas opinião. Ela se converte em visão de mundo.
Outro elemento decisivo nesse processo é a progressiva erotização da violência. Parte da cultura digital contemporânea — especialmente em certos conteúdos pornográficos consumidos precocemente — mistura sexualidade e agressão de forma constante. A mensagem implícita é perigosa: o desejo masculino seria naturalmente dominador, e a mulher existiria como objeto passivo dessa dominação.
Para uma mente adulta e formada, essa ficção pode ser reconhecida como fantasia. Para um adolescente em formação, ela frequentemente funciona como um manual implícito de comportamento.
A consequência social desse aprendizado silencioso começa a aparecer nas estatísticas criminais de diversos países: o crescimento de casos de violência sexual cometidos por jovens cada vez mais novos, muitas vezes acompanhados de atitudes de extrema indiferença moral. Em diversos episódios recentes, agressores adolescentes registraram ou compartilharam os próprios crimes em redes sociais, como se participassem de uma competição grotesca por atenção.
Essa atitude revela algo mais profundo que simples brutalidade. Ela revela a ruptura da sensibilidade moral.
Quando o outro deixa de ser percebido como sujeito — quando sua dor já não desperta horror — a violência deixa de exigir justificativa. Ela se torna possível simplesmente porque pode ser realizada.
Esse fenômeno exige reflexão pública urgente. Não se trata de demonizar a tecnologia nem de imaginar que a juventude contemporânea seja intrinsecamente mais cruel que gerações anteriores. Toda geração nasce com potencial tanto para a barbárie quanto para a civilização.
A questão central é educativa.
A formação moral de crianças e adolescentes sempre dependeu da presença de adultos capazes de mediar o mundo. Durante séculos, essa mediação ocorreu na família, na escola e na comunidade. Hoje, porém, grande parte da socialização juvenil acontece em territórios digitais onde essa presença adulta é praticamente inexistente.
Nesses espaços, o jovem aprende uns com os outros — mas sem orientação ética, sem contraponto crítico e sem maturidade emocional suficiente para avaliar aquilo que consome.
Em outras palavras, forma-se uma cultura juvenil que se educa sozinha.
E nenhuma sociedade pode esperar bons resultados quando abandona a educação moral de seus jovens à pura dinâmica das massas digitais.
O combate à misoginia online, portanto, não se limita a moderar conteúdos ou fechar grupos problemáticos. Essas medidas podem ser necessárias, mas permanecem insuficientes. O desafio mais profundo consiste em reconstruir a sensibilidade moral da juventude.
Isso implica educar para a empatia, para a dignidade do corpo humano e para a compreensão de que o desejo nunca pode ser separado do reconhecimento do outro como sujeito livre.
Significa também ensinar aos jovens algo que a internet raramente lhes mostra: que frustração, rejeição e sofrimento fazem parte inevitável da vida humana — e que nenhuma dessas experiências autoriza a violência contra quem quer que seja.
Uma sociedade revela seu grau de civilização não apenas nas leis que cria, mas nos sentimentos que cultiva. Quando a dor do outro volta a ser percebida como escândalo moral, a violência perde terreno. Quando o sofrimento se torna espetáculo, a barbárie encontra espaço para crescer.
A tarefa que se impõe à nossa geração é, portanto, profundamente humana: restaurar a capacidade de sentir.
Pois toda ética começa, antes de qualquer norma, no simples e difícil reconhecimento de que o outro também sofre.





