A Doença do Excesso: Por que nunca nos sentimos suficientes?

Você já teve a sensação de que tudo hoje precisa ser demais?

Como se o simples não bastasse. Como se viver, por si só, já não tivesse valor suficiente. É preciso provar. Mostrar. Exibir. Intensificar. Tudo precisa ser maior do que é — ou, ao menos, parecer.

Sempre buscamos pertencer. Isso é humano. Desde muito antes de qualquer padrão ou vitrine social, já existia em nós essa necessidade de estar com o outro, de encontrar um lugar no mundo. Aristóteles já dizia que somos seres voltados à vida em comunidade. Mas talvez o que tenha mudado não seja essa busca — e sim a forma como tentamos preenchê-la.

Hoje, pertencer parece exigir excesso.

Se você entra no universo fitness, não basta cuidar da saúde. É preciso ir além, treinar mais, levantar mais, mostrar mais. Se escolhe a vida acadêmica, estudar algumas horas parece pouco — o cansaço vira quase um símbolo de mérito. No mundo da estética, o acúmulo se torna linguagem: roupas, produtos, imagens que dizem mais sobre o que se quer parecer do que sobre o que se é.

E, sinceramente, isso pesa.

Esta autora que escreve possui grande incômodo com os exageros, pois me faz sentir quase que insuficiente no mundo, como se não malhasse o suficiente, não estudasse o suficiente. Mas o problema não é o meu esforço — é a época dos exageros.

Não é difícil entender como chegamos até aqui.

Guy Debord já refletia sobre uma sociedade em que a aparência ganha mais espaço do que a própria experiência. Aos poucos, deixamos de viver as coisas para começar a mostrá-las. E, nesse movimento, o excesso se torna regra. Porque o que é simples não chama atenção. E o que não chama atenção parece não existir.

Talvez por isso a gente sinta essa necessidade constante de fazer mais, ser mais, ter mais.

No fundo, não é só sobre desempenho. É sobre medo. Medo de não ser suficiente, de não ser visto, de não pertencer a lugar nenhum. Então a gente tenta caber em vários espaços ao mesmo tempo, mesmo que esses espaços sejam frágeis, passageiros, às vezes até irreais. E isso cansa.

Cansa ter que provar o tempo todo. Cansa viver como se cada escolha precisasse ser validada. Cansa sentir que existir, sozinho, não basta. Mas talvez exista um outro caminho.

Talvez não seja preciso exagerar para pertencer. Talvez não seja necessário ultrapassar todos os limites para se sentir válido. Existe uma força silenciosa nas coisas simples que a gente tem esquecido.

Não é sobre levantar mais peso, mas sobre cuidar do corpo com respeito. Não é sobre estudar até a exaustão, mas sobre aprender de forma consistente. Não é sobre ter tudo, mas sobre saber o que realmente importa.

A constância, apesar de discreta, constrói muito mais do que o excesso. Ela não impressiona de imediato, não chama tanta atenção, mas sustenta. E sustentar, no fim, é o que faz diferença.

Num mundo que insiste no exagero, talvez o verdadeiro equilíbrio esteja em aceitar o suficiente.

E entender, com mais calma, que ser já é muito.

Stéphanie Marocco

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