Em meio a tantos cenários geopolíticos conflituosos pelo mundo, hoje acordamos com mais uma notícia difícil: Donald Trump, mais uma vez, ultrapassa limites estatais ao interferir em um país que não lhe pertence, muito menos integra o território americano.
Desta vez, o pretexto são as acusações feitas pelo Estado americano de violação de direitos humanos e de que o chefe de Estado venezuelano comandaria cartéis de narcotráfico. Assim, na calada da noite, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa teriam sido sequestrados e levados para solo americano, com o objetivo de serem julgados e condenados em Manhattan.
O questionamento que se impõe é: por que toda uma megaoperação foi montada por Trump para sequestrar Maduro e, ainda assim, vemos bombardeios em solo venezuelano? Quais provas efetivamente evidenciam a culpa de Maduro nos crimes que lhe são imputados pelos EUA? Por que Maduro não foi levado a um comitê internacional de direitos humanos para ser julgado, já que os supostos crimes ultrapassam a esfera estatal? O que há, de fato, por trás das “boas intenções” de Trump?
Ao observarmos a geopolítica global, deparamo-nos com um cenário relevante: a Venezuela é um dos maiores detentores de reservas de petróleo do mundo e, além disso, possui petróleo de elevada pureza, sem infraestrutura suficiente para o refino da matéria-prima. Trata-se, portanto, de um ativo estratégico.
Além disso, é um país extremamente rico em recursos minerais, como ouro, ferro, bauxita, diamantes, estanho, tungstênio, tântalo, quartzo, cobre, caulim e dolomita, localizados principalmente no Arco Minerador do Orinoco. Muitos desses minerais são considerados críticos para a tecnologia moderna.
A Venezuela também exerce forte influência regional em razão de suas vastas reservas energéticas, sendo um ator-chave nas disputas de poder global, especialmente entre EUA, China e Rússia. Sua crise interna e as sanções impostas impactam a estabilidade regional, a segurança energética e geram fluxos migratórios intensos, transformando o país em um campo de batalha simbólico e estratégico na América Latina.
Por fim, não podemos esquecer que, no primeiro mandato de Trump, houve interesse explícito na exploração da Amazônia, tema que chegou a ser discutido com o então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Tal cenário apontava para uma flexibilização da exploração mineral em solo brasileiro por interesses estrangeiros. Contudo, com a derrota de Trump para Joe Biden e a mudança do governo brasileiro com a eleição de Lula, o panorama geopolítico da Amazônia foi significativamente alterado.
Esses fatos podem parecer desconexos à primeira vista, mas não são. Os Estados Unidos possuem um histórico consolidado de intervenções em outros países, bem como de exibição de força e poder bélico como estratégia de intimidação. É notório o investimento bilionário em armamentos e tecnologia militar com essa finalidade.
Ainda lhe parece desconexo?
A Venezuela é um importante aliado do Brasil. Assim como nós, não admite intervenções americanas diretas. Ambos possuem petróleo e minerais raros, mas o Brasil detém algo ainda mais valioso: a maior parte da Amazônia, região de interesse mundial histórico, especialmente dos EUA. Dessa forma, uma intervenção direta na Venezuela pode ser interpretada como uma declaração indireta de força e de possível intervenção regional, com reflexos diretos sobre o território brasileiro.
Não sejamos ingênuos ao defender a extrema direita, seja ela mundial ou brasileira. Tudo gira em torno da exibição de poder, do controle econômico e da hegemonia americana. Com a criação e o fortalecimento dos BRICS, os EUA perdem não apenas influência, mas também dinheiro e poder, isso representa uma erosão gradual da hegemonia americana, não uma ruptura imediata, o que para eles devem ser impedidos a todo custo, tornando o Brasil alvos estratégicos nesse contexto.
Aqui não se trata de defender Maduro ou seu regime autoritário. Crimes devem ser investigados, julgados e, se comprovados, punidos — porém por instâncias internacionais competentes, como comitês e tribunais internacionais de direitos humanos, e não unilateralmente pelos Estados Unidos.
Precisamos estar atentos, pois este ataque não se restringe ao petróleo venezuelano, mas alcança diretamente o território brasileiro. Trata-se de uma agenda clara de imperialismo. Não podemos esquecer que tanto Trump quanto Bolsonaro — representante da extrema direita no Brasil — defenderam a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, o que abriria margem jurídica e política para uma intervenção estrangeira em solo brasileiro.
Nada disso são coincidências ou fatos desconexos. Ao contrário, compõem uma estratégia articulada de manutenção de poder, baseada na exibição de força, no controle territorial e econômico e em acordos geopolíticos entre grandes potências, como Estados Unidos, China e Rússia, com o objetivo de preservar sua hegemonia global.
Stéphanie Marocco.





